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Prática clínica

Anamnese infantil: o que perguntar e como organizar

Os blocos de uma boa primeira escuta, por idade, e o que fazer com o que a família conta.

8 min de leituraPublicado em

Prancheta com um rabisco de criança, um lápis, o desenho de uma casa sob um sol, um carrinho de madeira e um caderno sobre a mesa.

A primeira conversa com a família não precisa ser um interrogatório. Precisa ser uma escuta organizada: você sabe o que quer entender, a família sente que foi ouvida e, no fim, o registro mostra quem disse o quê. Este guia propõe os blocos dessa conversa, o que perguntar em cada um, o que muda com a idade e o que fazer com o que a família conta.

Antes de perguntar: quem está contando

Anote primeiro quem responde. Cada pessoa sabe de uma parte: quem acompanhou a gestação, quem leva à escola, quem faz as refeições. Se mais de uma pessoa responde, registre quem disse o quê. Uma anamnese que mistura as vozes fica difícil de ler seis meses depois.

  • A criança também fala, se quiser e puder. Registre as palavras dela separadas das do responsável.
  • A escola é um terceiro nessa conversa. O que ela relata entra como foi dito e por quem, nunca como afirmação sua.
  • Peça a Caderneta da Criança. Ela é entregue à família na alta hospitalar e acompanha saúde, crescimento, desenvolvimento e vacinas do nascimento aos 9 anos. Preenchida, ajuda a conferir datas e o que outros profissionais já registraram.

Os blocos da primeira escuta

A ordem abaixo segue o caminho em que a conversa costuma fluir. As perguntas estão em linguagem de relato: você pergunta o que a família vê e faz, não o que a criança “tem”. Nem tudo cabe na primeira conversa, e “não sei” é uma resposta válida.

1. O motivo da busca, nas palavras da família

Comece pelo que trouxe a família até você, sem interpretar. O Ministério da Saúde sugere abrir a consulta de acompanhamento da criança com uma pergunta aberta: “Que preocupações você gostaria de me contar hoje?”.

  • O que levou vocês a procurar atendimento agora?
  • Quem percebeu primeiro, e desde quando?
  • Em que situações isso aparece mais, e em quais não aparece?

2. Gestação, parto e primeiros meses

Só o que tem a ver com a queixa de hoje; “não lembro” é resposta. Para o recém-nascido, o Ministério da Saúde lista como itens de história o tipo de parto, a idade gestacional, o peso ao nascer, o Apgar e as intercorrências na gestação, no parto e no período neonatal.

  • Houve algo diferente na gestação ou no parto?
  • Precisou de internação ou de cuidados especiais nos primeiros dias?
  • Foram feitas as triagens do recém-nascido (pezinho, orelhinha, olhinho, coraçãozinho e linguinha)? Alguém guardou os resultados?

3. Desenvolvimento e marcos

Pergunte quando a família viu cada coisa acontecer, não se a criança está “no esperado”. As idades de referência vêm de fonte oficial, não da memória. Para o Ministério da Saúde, a vigilância do desenvolvimento é um processo contínuo, dividido entre profissionais de saúde, escola e família, e a Caderneta da Criança traz os instrumentos para ela. Se algo que a criança já fazia deixou de aparecer, anote com cuidado e com a época aproximada.

  • Com que idade sentou, andou e falou as primeiras palavras? Está anotado na Caderneta?
  • Algum profissional já comentou algo sobre o desenvolvimento? Quem, e quando?
  • Alguma coisa que ela já fazia deixou de aparecer? O quê, e mais ou menos quando?

4. Saúde, sono e alimentação

É o bloco dos fatos: condições de saúde, internações, medicamentos, alergias, óculos ou aparelho auditivo. Anote o que a família informa e quem informou, sem corrigir; conferir uma medicação é com quem prescreve. Sono, alimentação, saúde bucal e horas de uso de tecnologia estão entre os itens que o Ministério da Saúde pede em cada consulta de acompanhamento da criança.

  • Como é o sono: horário de deitar, despertares, quem ajuda a dormir?
  • O que ela come numa semana comum? Há algo que recuse ou que a faça engasgar?
  • Toma algum medicamento? Para quê, segundo quem receitou?

5. Rotina, autonomia e brincar

Peça um dia comum, da manhã à noite, e deixe a autonomia aparecer nos detalhes: quem veste, quem dá a comida, quem arruma a mochila. Brincar mostra o que a criança sabe fazer com o mundo: do que gosta, com quem, por quanto tempo.

  • Como são a manhã, a tarde e a noite? Quem participa dos cuidados?
  • Comer, vestir-se, higiene, banho e banheiro: o que ela faz sozinha, com lembrete ou com ajuda?
  • Do que mais gosta de brincar? Como entra numa brincadeira que já começou?

6. Escola

Quem relata é a família; o que a escola disse entra como relato de terceiro, com a data. Pergunte também o que vai bem: é um bom ponto de partida para a conversa com a escola.

  • Qual é a série e o período? Há apoio ou acompanhante?
  • O que a escola relata? Quem disse, e quando?
  • O que ela faz com facilidade na escola? O que já foi adaptado?

7. Comunicação

Comece pelo que a criança faz hoje para se comunicar: fala, gesto, apontar, figuras. Depois, os marcos da fala (balbucio, primeiras palavras, primeiras frases), como datas aproximadas.

  • Como ela pede o que quer?
  • Ela entende pedidos do dia a dia, como “pega o sapato”?
  • Pessoas de fora da família entendem o que ela fala?

8. Reações, preferências e regulação

Aqui vale relato, não avaliação: o que a família percebe e o que ajuda, sem rótulo. O modelo de T.O. da Blummy chama o bloco sensorial de “relato” e diz na tela que ele não é uma avaliação e não gera conclusões.

  • Há sons, roupas, texturas, alimentos ou lugares que ela evita ou procura muito?
  • O que costuma acontecer nessas horas, e o que ajuda?
  • Como ela reage quando uma atividade precisa terminar ou o plano muda?

9. O que já foi tentado e quem acompanha

Pergunte por quem já cuidou da criança e pelo que a família já experimentou em casa. Não é para julgar a tentativa: é para não repetir o que não funcionou e reconhecer o que já ajuda.

  • Já fez outras terapias? Por quanto tempo, e como foi?
  • Quem acompanha hoje, e com que frequência?
  • Existe laudo, relatório ou encaminhamento? Dá para trazer uma cópia?

10. O que a família espera

Feche perguntando o que mudaria no dia a dia se o acompanhamento ajudasse. Peça até três pontos, nas palavras da família. É relato de prioridade, não objetivo: o objetivo é seu, e vem depois.

  • O que vocês mais gostariam de ver melhorar neste momento?
  • Se o acompanhamento ajudasse, o que seria diferente na rotina de vocês?

O que muda com a idade

O roteiro é o mesmo; o peso de cada bloco muda. As faixas abaixo são uma sugestão de ênfase, não uma norma.

FaixaPesa mais na conversaPode esperar
Até 3 anosGestação e primeiros meses, marcos com a Caderneta na mão, sono, alimentação e comunicaçãoEscola e amizades
De 3 a 5 anosComunicação, brincar com outras crianças, autonomia, entrada na escola e reação a mudançasDetalhes do parto, se a queixa não os pede
De 6 a 11 anosEscola e aprendizagem, rotina, amizades, regulação e o que a criança diz sobre vir ao atendimentoMarcos dos primeiros anos, se a queixa não os pede
De 12 a 17 anosA voz do adolescente, escola, sono, rotina e autonomia; o que ele quer contarGestação e primeiros anos

O que fazer com o que a família conta

  1. Separe relato, documento e observação. O que a família conta é relato. O que consta num laudo é informação documentada, com fonte. O que você vê na sessão vem depois, nos seus próprios registros.
  2. Liste as prioridades com as palavras da família, até três, sem traduzir. “Ela fala pouco” é a prioridade de quem disse; não é conclusão sua.
  3. Converse sobre por onde começar. A prioridade da família e o que você enxerga nem sempre coincidem, e vale falar das duas antes de decidir.
  4. Escreva o objetivo com as suas palavras. A prioridade é ponto de partida; o objetivo é seu: observável, com uma forma de acompanhar e uma data para rever. A anamnese não vira objetivo por si só.
  5. Guarde a origem. Anote de qual conversa e de qual prioridade o objetivo partiu, para que, meses depois, qualquer pessoa entenda por que ele existe.
  6. Atualize sem apagar. Informação nova entra como adendo, com data e autoria, e o que foi dito antes permanece como foi registrado.

As normas de registro das três profissões reservam lugar para essa escuta: a Terapia Ocupacional pede a história clínica (COFFITO 415/2012, art. 1º, § 1º, II), a Fonoaudiologia pede os dados da anamnese no primeiro registro (CFFa 777/2025, art. 13, c) e o Manual orientativo do CFP (2025) traz um modelo de registro com espaço para a avaliação da demanda e o plano de trabalho.

Cuidados na conversa

  • Não culpe. Pergunte “como é em casa?”, não “por que você…?”; a segunda soa como cobrança.
  • Não rotule. Registre situações e comportamentos (“sai correndo quando o barulho aumenta”), não categorias (“agitado”, “birrento”).
  • Registre com as palavras da família e diga quem falou. Uma citação curta, entre aspas, vale mais do que a sua tradução.
  • Diagnóstico trazido pela família entra como informado: quem disse, quando, se há documento. Não é um diagnóstico seu nem do atendimento de hoje.
  • Nem tudo precisa ser dito hoje. Perguntas sobre perdas, situações difíceis, guarda e histórico de saúde da família podem esperar a confiança. O modelo de Psicologia da Blummy nunca torna essas perguntas essenciais e sempre aceita “prefere não informar”.
  • Peça só o necessário. Dado de terceiros, como a saúde de um familiar, só entra se tiver a ver com o atendimento, e como foi relatado.

Três trocas de pergunta

“Por que ele não obedece?” vira “O que acontece logo antes?”. “Ele é agitado?” vira “Em que horas do dia ele precisa se mexer mais?”. “Ela é tímida?” vira “Como ela reage quando chega alguém novo?”.

Como a Blummy ajuda

Os modelos de anamnese guiada da Blummy para T.O., Fonoaudiologia e Psicologia cobrem estes blocos, cada um com os da sua área. O roteiro muda com a idade (infantil até 11 anos, adolescente de 12 a 17) e com as respostas: uma pergunta de acompanhamento só aparece quando a anterior pede. Tudo é salvo sozinho, “não sabe informar” conta como resposta e dá para finalizar com pendências; respostas como a perda de uma habilidade ganham o marcador “Para revisão profissional”, que chama a sua atenção sem interpretar. As prioridades que a família traz (até três) aparecem na aba do plano terapêutico como ponto de partida para criar um objetivo; o objetivo é escrito por você, guarda a origem, e nada vira objetivo automaticamente.

Fontes consultadas

Conteúdo informativo. Não é protocolo clínico, não diagnostica e não substitui o seu raciocínio profissional nem a orientação do seu conselho.

Dúvidas

Perguntas sobre este assunto

Preciso fazer todas as perguntas na primeira conversa?

Não. Comece pelo motivo, pelo que a família quer ver melhorar e pelo que for urgente para o atendimento; o resto pode vir nos encontros seguintes. Na Blummy, nada é obrigatório para finalizar: o que ficou em aberto é registrado como pendência.

A criança deve participar da conversa?

Se ela quiser e puder, sim. Registre as palavras dela separadas do relato do responsável. O modelo de anamnese de Psicologia da Blummy tem uma pergunta própria para isso.

Como registro um diagnóstico que a família traz?

Como informação, com a fonte: quem informou, quando e se há documento. Não é um diagnóstico seu nem do atendimento de hoje. Nos modelos de T.O. e Fonoaudiologia da Blummy, o bloco se chama “Diagnósticos e hipóteses informados” e diz isso na própria tela.

Onde confiro os marcos do desenvolvimento?

Na Caderneta da Criança, do Ministério da Saúde, que acompanha a criança do nascimento aos 9 anos e traz instrumentos de vigilância do desenvolvimento. Peça à família para trazê-la e use a referência oficial em vez da memória.

A família não sabe responder sobre a gestação. E agora?

Anote que não sabe informar e siga. Resposta em branco não é “não”, e o que a família descobrir depois entra como adendo, com data.

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