A primeira conversa com a família não precisa ser um interrogatório. Precisa ser uma escuta organizada: você sabe o que quer entender, a família sente que foi ouvida e, no fim, o registro mostra quem disse o quê. Este guia propõe os blocos dessa conversa, o que perguntar em cada um, o que muda com a idade e o que fazer com o que a família conta.
Antes de perguntar: quem está contando
Anote primeiro quem responde. Cada pessoa sabe de uma parte: quem acompanhou a gestação, quem leva à escola, quem faz as refeições. Se mais de uma pessoa responde, registre quem disse o quê. Uma anamnese que mistura as vozes fica difícil de ler seis meses depois.
- A criança também fala, se quiser e puder. Registre as palavras dela separadas das do responsável.
- A escola é um terceiro nessa conversa. O que ela relata entra como foi dito e por quem, nunca como afirmação sua.
- Peça a Caderneta da Criança. Ela é entregue à família na alta hospitalar e acompanha saúde, crescimento, desenvolvimento e vacinas do nascimento aos 9 anos. Preenchida, ajuda a conferir datas e o que outros profissionais já registraram.
Os blocos da primeira escuta
A ordem abaixo segue o caminho em que a conversa costuma fluir. As perguntas estão em linguagem de relato: você pergunta o que a família vê e faz, não o que a criança “tem”. Nem tudo cabe na primeira conversa, e “não sei” é uma resposta válida.
1. O motivo da busca, nas palavras da família
Comece pelo que trouxe a família até você, sem interpretar. O Ministério da Saúde sugere abrir a consulta de acompanhamento da criança com uma pergunta aberta: “Que preocupações você gostaria de me contar hoje?”.
- O que levou vocês a procurar atendimento agora?
- Quem percebeu primeiro, e desde quando?
- Em que situações isso aparece mais, e em quais não aparece?
2. Gestação, parto e primeiros meses
Só o que tem a ver com a queixa de hoje; “não lembro” é resposta. Para o recém-nascido, o Ministério da Saúde lista como itens de história o tipo de parto, a idade gestacional, o peso ao nascer, o Apgar e as intercorrências na gestação, no parto e no período neonatal.
- Houve algo diferente na gestação ou no parto?
- Precisou de internação ou de cuidados especiais nos primeiros dias?
- Foram feitas as triagens do recém-nascido (pezinho, orelhinha, olhinho, coraçãozinho e linguinha)? Alguém guardou os resultados?
3. Desenvolvimento e marcos
Pergunte quando a família viu cada coisa acontecer, não se a criança está “no esperado”. As idades de referência vêm de fonte oficial, não da memória. Para o Ministério da Saúde, a vigilância do desenvolvimento é um processo contínuo, dividido entre profissionais de saúde, escola e família, e a Caderneta da Criança traz os instrumentos para ela. Se algo que a criança já fazia deixou de aparecer, anote com cuidado e com a época aproximada.
- Com que idade sentou, andou e falou as primeiras palavras? Está anotado na Caderneta?
- Algum profissional já comentou algo sobre o desenvolvimento? Quem, e quando?
- Alguma coisa que ela já fazia deixou de aparecer? O quê, e mais ou menos quando?
4. Saúde, sono e alimentação
É o bloco dos fatos: condições de saúde, internações, medicamentos, alergias, óculos ou aparelho auditivo. Anote o que a família informa e quem informou, sem corrigir; conferir uma medicação é com quem prescreve. Sono, alimentação, saúde bucal e horas de uso de tecnologia estão entre os itens que o Ministério da Saúde pede em cada consulta de acompanhamento da criança.
- Como é o sono: horário de deitar, despertares, quem ajuda a dormir?
- O que ela come numa semana comum? Há algo que recuse ou que a faça engasgar?
- Toma algum medicamento? Para quê, segundo quem receitou?
5. Rotina, autonomia e brincar
Peça um dia comum, da manhã à noite, e deixe a autonomia aparecer nos detalhes: quem veste, quem dá a comida, quem arruma a mochila. Brincar mostra o que a criança sabe fazer com o mundo: do que gosta, com quem, por quanto tempo.
- Como são a manhã, a tarde e a noite? Quem participa dos cuidados?
- Comer, vestir-se, higiene, banho e banheiro: o que ela faz sozinha, com lembrete ou com ajuda?
- Do que mais gosta de brincar? Como entra numa brincadeira que já começou?
6. Escola
Quem relata é a família; o que a escola disse entra como relato de terceiro, com a data. Pergunte também o que vai bem: é um bom ponto de partida para a conversa com a escola.
- Qual é a série e o período? Há apoio ou acompanhante?
- O que a escola relata? Quem disse, e quando?
- O que ela faz com facilidade na escola? O que já foi adaptado?
7. Comunicação
Comece pelo que a criança faz hoje para se comunicar: fala, gesto, apontar, figuras. Depois, os marcos da fala (balbucio, primeiras palavras, primeiras frases), como datas aproximadas.
- Como ela pede o que quer?
- Ela entende pedidos do dia a dia, como “pega o sapato”?
- Pessoas de fora da família entendem o que ela fala?
8. Reações, preferências e regulação
Aqui vale relato, não avaliação: o que a família percebe e o que ajuda, sem rótulo. O modelo de T.O. da Blummy chama o bloco sensorial de “relato” e diz na tela que ele não é uma avaliação e não gera conclusões.
- Há sons, roupas, texturas, alimentos ou lugares que ela evita ou procura muito?
- O que costuma acontecer nessas horas, e o que ajuda?
- Como ela reage quando uma atividade precisa terminar ou o plano muda?
9. O que já foi tentado e quem acompanha
Pergunte por quem já cuidou da criança e pelo que a família já experimentou em casa. Não é para julgar a tentativa: é para não repetir o que não funcionou e reconhecer o que já ajuda.
- Já fez outras terapias? Por quanto tempo, e como foi?
- Quem acompanha hoje, e com que frequência?
- Existe laudo, relatório ou encaminhamento? Dá para trazer uma cópia?
10. O que a família espera
Feche perguntando o que mudaria no dia a dia se o acompanhamento ajudasse. Peça até três pontos, nas palavras da família. É relato de prioridade, não objetivo: o objetivo é seu, e vem depois.
- O que vocês mais gostariam de ver melhorar neste momento?
- Se o acompanhamento ajudasse, o que seria diferente na rotina de vocês?
O que muda com a idade
O roteiro é o mesmo; o peso de cada bloco muda. As faixas abaixo são uma sugestão de ênfase, não uma norma.
| Faixa | Pesa mais na conversa | Pode esperar |
|---|---|---|
| Até 3 anos | Gestação e primeiros meses, marcos com a Caderneta na mão, sono, alimentação e comunicação | Escola e amizades |
| De 3 a 5 anos | Comunicação, brincar com outras crianças, autonomia, entrada na escola e reação a mudanças | Detalhes do parto, se a queixa não os pede |
| De 6 a 11 anos | Escola e aprendizagem, rotina, amizades, regulação e o que a criança diz sobre vir ao atendimento | Marcos dos primeiros anos, se a queixa não os pede |
| De 12 a 17 anos | A voz do adolescente, escola, sono, rotina e autonomia; o que ele quer contar | Gestação e primeiros anos |
O que fazer com o que a família conta
- Separe relato, documento e observação. O que a família conta é relato. O que consta num laudo é informação documentada, com fonte. O que você vê na sessão vem depois, nos seus próprios registros.
- Liste as prioridades com as palavras da família, até três, sem traduzir. “Ela fala pouco” é a prioridade de quem disse; não é conclusão sua.
- Converse sobre por onde começar. A prioridade da família e o que você enxerga nem sempre coincidem, e vale falar das duas antes de decidir.
- Escreva o objetivo com as suas palavras. A prioridade é ponto de partida; o objetivo é seu: observável, com uma forma de acompanhar e uma data para rever. A anamnese não vira objetivo por si só.
- Guarde a origem. Anote de qual conversa e de qual prioridade o objetivo partiu, para que, meses depois, qualquer pessoa entenda por que ele existe.
- Atualize sem apagar. Informação nova entra como adendo, com data e autoria, e o que foi dito antes permanece como foi registrado.
As normas de registro das três profissões reservam lugar para essa escuta: a Terapia Ocupacional pede a história clínica (COFFITO 415/2012, art. 1º, § 1º, II), a Fonoaudiologia pede os dados da anamnese no primeiro registro (CFFa 777/2025, art. 13, c) e o Manual orientativo do CFP (2025) traz um modelo de registro com espaço para a avaliação da demanda e o plano de trabalho.
Cuidados na conversa
- Não culpe. Pergunte “como é em casa?”, não “por que você…?”; a segunda soa como cobrança.
- Não rotule. Registre situações e comportamentos (“sai correndo quando o barulho aumenta”), não categorias (“agitado”, “birrento”).
- Registre com as palavras da família e diga quem falou. Uma citação curta, entre aspas, vale mais do que a sua tradução.
- Diagnóstico trazido pela família entra como informado: quem disse, quando, se há documento. Não é um diagnóstico seu nem do atendimento de hoje.
- Nem tudo precisa ser dito hoje. Perguntas sobre perdas, situações difíceis, guarda e histórico de saúde da família podem esperar a confiança. O modelo de Psicologia da Blummy nunca torna essas perguntas essenciais e sempre aceita “prefere não informar”.
- Peça só o necessário. Dado de terceiros, como a saúde de um familiar, só entra se tiver a ver com o atendimento, e como foi relatado.
Três trocas de pergunta
“Por que ele não obedece?” vira “O que acontece logo antes?”. “Ele é agitado?” vira “Em que horas do dia ele precisa se mexer mais?”. “Ela é tímida?” vira “Como ela reage quando chega alguém novo?”.
Como a Blummy ajuda
Os modelos de anamnese guiada da Blummy para T.O., Fonoaudiologia e Psicologia cobrem estes blocos, cada um com os da sua área. O roteiro muda com a idade (infantil até 11 anos, adolescente de 12 a 17) e com as respostas: uma pergunta de acompanhamento só aparece quando a anterior pede. Tudo é salvo sozinho, “não sabe informar” conta como resposta e dá para finalizar com pendências; respostas como a perda de uma habilidade ganham o marcador “Para revisão profissional”, que chama a sua atenção sem interpretar. As prioridades que a família traz (até três) aparecem na aba do plano terapêutico como ponto de partida para criar um objetivo; o objetivo é escrito por você, guarda a origem, e nada vira objetivo automaticamente.
Fontes consultadas
- Ministério da Saúde: Caderneta da Criança · conferido em 12/10/2026
- Ministério da Saúde, Linhas de Cuidado: Puericultura, Atenção Primária, Criança (anamnese e vigilância do desenvolvimento) · conferido em 12/10/2026
- Ministério da Saúde, Linhas de Cuidado: Puericultura, Atenção Primária, Recém-nascido (anamnese e triagens) · conferido em 12/10/2026
- COFFITO: Resolução 415/2012 (prontuário em Terapia Ocupacional) · conferido em 12/10/2026
- CFFa: Resolução 777/2025 (prontuário em Fonoaudiologia) · conferido em 12/10/2026
- CFP: Manual orientativo de registro e elaboração de documentos psicológicos (2025) · conferido em 12/10/2026
Conteúdo informativo. Não é protocolo clínico, não diagnostica e não substitui o seu raciocínio profissional nem a orientação do seu conselho.
